08/03/2026

Taboão tem um novo caso de v1olência s3xual contra mulher ou menor a cada 4 dias

Dados da CNJ revelam que a cada 2 dias uma mulher da sofre violência doméstica; maioria dos abusos ocorre dentro do ambiente familiar.
Bruna Correia e João Gabriel Leite

    Os registros de estupro e estupro de vulnerável cresceram quase 5 vezes na última década em Taboão da Serra, segundo levantamento da tab_jornalismo com base nos dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP). Feminicídios são 8 vezes mais, segundo Conselho Nacional de Justiça.

    Os casos totais passaram, de 19 em 2016 para 94 em 2025, uma alta de 394,7% no período. Apesar da queda em 2025 relação aos dois anos anteriores, os números permanecem acima do início da série histórica.

    Desse número, a cidade registrou 86 ocorrências de estupro em 2025, sendo 70 classificadas como estupro de vulnerável — categoria que inclui vítimas incapazes de consentir, como crianças e adolescentes —, 16 casos de estupro e 8 feminicídios.

    Por que isso é importante?

    De acordo com o relatório do Fórum de Segurança Pública (FSP), violência sexual contra mulheres e crianças segue em crescimento no Brasil. Só em 2024, o país registou mais de 87 mil casos, sendo que 45% deles aconteceram dentro do ambiente familiar, o que dificulta denúncias e investigações

    Profissionais médicos e enfermeiros da Prefeitura receberam treinamento pré-natal e ginecologia na Atenção Primária da cidade. Foto: Divulgação.
    Profissionais médicos e enfermeiros da Prefeitura receberam treinamento pré-natal e ginecologia na Atenção Primária da cidade. Foto: Divulgação.

    O tema voltou ao centro do debate nacional após o caso ocorrido na última semana no Rio de Janeiro, em que uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo. O debate se intensificou com discussões sobre proteção a menores, principalmente sobre consentimento e responsabilização dos agressores.

    Especialistas apontam que episódios como esse evidenciam um problema estrutural: a violência sexual contra vulneráveis costuma ocorrer em contextos de proximidade entre vítima e agressor, e grande parte dos casos permanece subnotificada.

    O que dizem os dados?

    Taboão da Serra registrou aumento contínuo nos crimes contra mulheres e vulneráveis na última década. A exceção foi 2020, no auge da pandemia de covid-19. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ressalta, no entanto, que a queda pontual refletia, à ocasião, a subnotificação causada pelo isolamento social, e não uma redução real dos crimes.

    Os dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostram que os estupros de vulnerável cresceram de forma consistente: em 2016, foram 18 registros. O número atingiu seu pico em 2024, com 80 casos, e recuou levemente para 70 em 2025 — patamar quase quatro vezes maior que o do início da série histórica.

    O feminicídio também registrou aumento a cidade: o número deixou de oscilavar entre zero e três casos anuais, e em 2025 registrou oito mortes desse tipo.

    O avanço da violência intrafamiliar também aparece nos registros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os casos de violência doméstica no município em 2025 dobraram em relação a 2020, início da série disponibilizada pelo Orgão.

    A análise mensal do período mostra que as ocorrências se intensificaram nos últimos dois anos, com os maiores picos da série concentrados nos meses de julho e outubro de 2025.

    Como reflexo da alta dos casos, a demanda por proteção judicial em Taboão também cresceu. O número de medidas protetivas de urgência concedidas a mulheres pela Justiça passou de 52,6 mil em 2020 para 111,9 mil em 2025. As recusas judiciais (medidas denegadas) acompanharam a proporção de alta, subindo de 9,8 mil para 19 mil no mesmo período.

    O que estão dizendo?

    O cenário de oscilações e saltos nas notificações de Taboão da Serra espelha um problema crônico do país: o que chega às delegacias não reflete a totalidade dos casos.

    Ao cruzar informações de hospitais e de segurança pública em um estudo publicado em 2023, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou o tamanho do abismo estatístico brasileiro, estimando a ocorrência de pelo menos 822 mil casos de violência sexual por ano no país.

    Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2026 – A integrante do coletivo Vidas Negras Importam, Silvia de Mendonça durante ato do Dia Internacional da Mulher que ocupa a praia de Copacabana, na zona sul do Rio, pedindo o fim das violências contra as mulheres. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    “A partir desse número, foi possível estimar que apenas 8,5% dos estupros estão sendo identificados pela polícia e 4,2% pelos sistemas de informação da saúde”, aponta o documento do Ipea.

    A explicação para um apagão nas denúncias está na própria mecânica do crime. Análises do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), consolidadas no Anuário de 2025, evidenciam que a maior parte dos casos contra vulneráveis acontece dentro da própria residência da vítima e é cometida por pais, padrastos ou pessoas do convívio íntimo.

    Sem ter a quem recorrer sob o próprio teto, o silêncio da vítima se torna a principal arma do agressor.

    “[…] parece muito claro diante da informação de que essa violência é preponderantemente intrafamiliar e ocorre dentro de casa”, destacam os pesquisadores do Fórum.

    Para eles, o modelo atual de justiça criminal, focado na repressão, é incapaz de rastrear e frear esses casos sozinho.

    Entrega da revitalização da EMEB Machado de Assis pelo programa Escola Mais Bonita, realizada pela Prefeitura. Foto: Divulgação.

    Pesquisadores da Universidade Campinas (UNICAMP) destacaram, no ano passado, o papel da escola como ambiente escolar estratégico para a mitigação dos casos, justamente por manter a criança temporariamente distante da vigilância do abusador.

    “A escola, enquanto espaço de formação e proteção, desempenha um papel crucial na identificação e prevenção de situações de violência”, aponta o levantamento.

    Porém, a pesquisa destaca que ainda que as escolas funcionem como uma barreira de proteção à infância, o poder público precisa atuar para garantir protocolos seguros e preparo técnico para que os educadores saibam reconhecer os sinais de abuso e encaminhar as denúncias de forma adequada.

    Para tentar frear a violência de gênero, a atual gestão municipal sancionou no início de 2025 a criação da Secretaria da Mulher, além de criar uma força de patrulhamento dedicada ao combate da violência doméstica.

    Patrulha Guardiã Maria da Penha de Taboão, força criada especialmente para o tema na cidade, durante seminário de combate a violência contra a mulher em agosto de 2025

    A pasta, no entanto, teve um início turbulento. Em maio daquele ano, a prefeitura chegou a nomear temporariamente o ex-vereador Waines Moreira Alves para chefiar o órgão recém-criado, decisão que gerou forte reação nas redes sociais e repercutiu negativamente em veículos da imprensa nacional.

    Após o desgaste, a gestão recuou e empossou a advogada Thaís Miana.

    A advogada Thaís Miana, durante 1ª Mostra de Arte Urbana Feminina, realizada em Outubro de 2025. Foto: divulgação.
    A advogada Thaís Miana, durante 1ª Mostra de Arte Urbana Feminina, realizada em Outubro de 2025. Foto: divulgação.

    Durante o anúncio da nova secretaria, repercutido pelo portal local Jornal na Net, a nova secretária prometeu agir rápido:

    “Já temos projetos para garantir dignidade, respeito e acesso aos serviços públicos para todas”, disse.

    Meses depois, durante eventos do chamado “Agosto Lilás” noticiados pelo Portal O Taboanense, a titular voltou a enfatizar as iniciativas da pasta, como a promoção de palestras e apoio psicológico.

    “Aqui em Taboão da Serra, temos um compromisso diário com a proteção das mulheres, e essa jornada vem fortalecer ainda mais nossa rede de acolhimento e prevenção”, afirmou Miana à época.

    No dia 27 de fevereiro desse ano, no entanto, Miana deixou a pasta, e afirmou ao portal Verbo Online a necessidade de voltar a advogar para o grupo político, que seria incompatível com a “dedicação exclusiva” que a pasta demandaria, afirmou.

    A reportagem procurou a Prefeitura de Taboão da Serra e a Secretaria da Mulher para questionar sobre a efetividade das atuais políticas públicas locais e as ações voltadas especificamente para crianças e adolescentes, mas não obtivemos resposta até a publicação desta reportagem.

    O espaço segue aberto para manifestação.

    Saiba Mais

    Dados nacionais mostram que crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas de violência sexual no país, com maior incidência entre as faixas de 10 a 13 anos e de 14 a 17 anos.

    O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 também aponta que a maioria das agressões ocorre dentro de casa, muitas vezes praticadas por pessoas conhecidas da vítima, como familiares ou parceiros.

    Especialistas afirmam que esse tipo de crime apresenta alto índice de subnotificação, já que a dependência da vítima em relação ao agressor pode dificultar denúncias.

    Os dados sobre essas ocorrências podem ser encontrados no Painel Estatístico da SSP. Os dados são públicos, livres e tem acesso gratuito e digital.