13/02/2026

Mesmo após mudanças, Taboão da Serra registra um acidente de trânsito a cada 12 horas

Levantamento exclusivo da tab_jornalismo revela que a cidade tem, em média, um acidente de trânsito a cada 12 horas, metade deles fatais.

Taboão da Serra registrou 696 sinistros de trânsito entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025, alta de 3,4% em relação a 2024, segundo levantamento exclusivo da tab_jornalismo com base no InfosigaSP. No período, foi registrado, em média, um acidente a cada 11,5 horas.

Os registros indicam ainda aumento de 11,2% nos acidentes fatais — de 347 para 386 casos no comparativo anual. Um dos episódios ocorreu no fim de janeiro, quando uma caçamba de entulho deixou quatro mortos na Avenida Taboão da Serra, principal eixo viário da cidade e foco recorrente de ocorrências.

A via foi municipalizada no início de 2024, ainda na gestão Aprígio (Podemos) e agora está sob testes na gestão de Engenheiro Daniel (União Brasil).

Cruzamento da Avenida Taboão da Serra. Foto: Divulgação Prefeitura de Taboão da Serra (SP)

Desde o segundo semestre de 2025, a Prefeitura tem realizado testes com a desativação de semáforos em cruzamentos da Avenida Taboão da Serra, novo nome da via, conforme nota oficial. O documento segue mencionando que a medida “busca aumentar a fluidez em um dos corredores mais congestionados do município”.

Os dados, porém, indicam que os acidentes continuam concentrados nos mesmos trechos, com homens entre os 20 e 25 anos de idade como principais vítimas.

Por que isso é importante?

Emancipada no final dos anos 50, às margens da BR-116, Taboão da Serra concentra 13,4 mil habitantes por km², a maior densidade populacional do país, segundo o Censo 2022.

Em um território de quase 20 km², isso se traduz em alta pressão sobre o sistema viário. Símbolo dessa pressão é o próprio trecho da antiga BR-116, que corta a cidade no eixo oeste-leste.

Parte relevante do tráfego do município é de passagem, conectando bairros da capital — como Butantã e Vila Sônia — ao Campo Limpo e Capão Redondo, tanto via Avenida Taboão da Serra — novo nome da antiga BR-116 — quanto via Avenida Kizaemon Takeuti.

Vista área da Avenida Taboão da Serra. Foto: Divulgação Prefeitura de Taboão da Serra (SP)

A Pesquisa Origem e Destino (2023) mostra que somente a região central de Taboão gera 132,6 mil viagens diárias. Automóveis e motocicletas respondem por 8 em cada 10 (82%) desses deslocamentos.

Com cerca de 280 mil habitantes, o município tem um quarto da população entre 15 e 29 anos, faixa etária mais associada a deslocamentos por trabalho e estudo — só esses dois motivos concentram mais da metade das viagens.

Para quem depende do transporte coletivo, o tempo de deslocamento pode chegar a 1h02, segundo a pesquisa.

O que dizem os dados?

Os registros do InfosigaSP mostram que Taboão da Serra contabilizou 696 acidentes de trânsito em 2025, um aumento de 3,4% em relação a 2024, interrompendo a queda observada no ano anterior.

Se considerados os sinistros fatais, ou seja, acidentes que resultaram em mortes, Taboão da Serra teve crescimento de 11,2% em relação a 2024, com 386 acidentes com mortes registrados pelo sistema do InfosigaSP.

Em termos trimestrais, o número de ocorrências totais voltou a crescer a partir do segundo trimestre de 2025, quando teve um pico de 187 sinistros, após atingir o menor patamar da série desde a munipalização.

A avenida Taboão da Serra (ex-BR-116) segue como o principal eixo de sinistros do município, apesar da redução de 15,3% no número de acidentes entre 2024 e 2025.

Em sentido oposto, a Estrada Kizaemon Takeuti registrou aumento de 9,5%, enquanto a Avenida Laurita Ortega Mari passou de 19 para 27 sinistros para o mesmo período, um aumento de 42,1%, reforçando a tendência de concentração dos sinistros nos corredores de maior fluxo.

Os dados mostram que homens entre 20 e 24 anos concentram cerca de um de cada três acidentes registrados. A maior parte deles, motoboys e autônomos, que correspondem por mais de 50% dos casos. Entre as mulheres, a mesma faixa etária também aparece como a mais afetada, embora com volume menor. A incidência cai progressivamente a partir dos 30 anos.

Na série histórica, os dados indicam que, mesmo com reduções pontuais em vias estratégicas, o município mantém o mesmo patamar de ocorrências.

O que estão dizendo?

Em um artigo de revisão sistemática publicado na PLOS ONE, pesquisadores da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), em colaboração com o brasileiro Luciado de Andrade da Universidade Estadural do Oeste do Paraná (unoeste), apontam que o crescimento urbano acelerado e o aumento da frota criam condições estruturais que elevam o risco de acidentes de trânsito.

Avenida Paulista. Foto: Fotos Públicas
“O número de lesões no trânsito vem aumentando em razão da rápida urbanização e da motorização, especialmente […] onde a infraestrutura viária e os sistemas de segurança não acompanharam esse crescimento”, aponta o artigo.

As várias gestões da cidade já tentaram diversas abordagens, entre a instalação de radares, como a própria intervenção de desligamento dos semáforos anunciada pela prefeitura no fim de 2025. Os pesquisadores alertam, porém, que intervenções viárias isoladas, quando voltadas apenas à fluidez, podem produzir efeitos adversos sobre a segurança.

“Melhorias nas vias podem aumentar o número de lesões no trânsito se não forem acompanhadas de medidas adequadas de controle de velocidade e gestão do fluxo.”

Segundo o estudo, as respostas mais eficazes ao problema combinam diferentes instrumentos de política pública, especialmente legislação e fiscalização.

Cruzamento da Avenida Taboão da Serra. Foto: Divulgação Prefeitura de Taboão da Serra (SP)
“A legislação foi a intervenção mais frequentemente avaliada, apresentando melhores resultados quando combinada com forte fiscalização ou inserida em uma abordagem multifacetada.”

Isso porque, para os autores reforçam que os acidentes não são eventos aleatórios.

“As lesões no trânsito são previsíveis e evitáveis, refletindo falhas do sistema de transporte, e não apenas erros individuais”, concluem.

Em 14 de janeiro desse ano, outra nota do poder público municipal anunciou a desativação do semáforo no cruzamento da Avenida Taboão da Serra com a Rua Franscisco Celso, mas interrompeu o teste 8 dias depois.

Por meio da Secretaria de Trânsito, Transportes e Mobilidade Urbana, que tem à frente o secretário Marcos Paulo de Oliveira, a prefeitura afirmou que a execução do teste

“mostrou-se inviável, pois ocasionou transtornos significativos no funcionamento dos demais semáforos da região com impacto profundo na mobilidade urbana.”

A reportagem questionou via e-mail a Prefeitura sobre os indicadores usados para monitorar a segurança viária, a existência de metas de redução de acidentes e de um panorama atualizado dos trechos mais críticos. Também perguntou quais estudos embasaram a desativação de semáforos na Avenida Taboão da Serra, como funciona a fiscalização de velocidade, se há ações voltadas a grupos mais expostos e como o município lida com o tráfego de passagem.

No entanto, a Prefeitura não respondeu às perguntas feitas até o fechamento da reportagem. O canal segue aberto.

Saiba mais

Os dados foram processados em linguagem Python e analisados pela reportagem da tab_jornalismo a partir dos microdados oficiais do Infosiga-SP, com padronização de logradouros e consolidação do eixo viário analisado. Além deles, foram utilizados também dados do Panorama Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e da Pesquisa Origem e Destino 2023 da Companhia do Metropolitano de São Paulo.

Os dados são públicos, livres e tem acesso gratuito e digital.