13/02/2025

Em 10 dias, Taboão da Serra já teve o dobro da chuva esperada para fevereiro

O Centro Nacional de Monitoralmento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) aponta recorde histórico de 758mm em 10 dias; só no domingo (2), choveu 310mm, 27% acima da média mensal em um único dia.
João Gabriel Leite

Taboão da Serra (SP) registrou um volume de chuva recorde nos primeiros dez dias de fevereiro: 728mm, 198,3% acima da média histórica de 244 mm para todo o mês. Fevereiro também teve o maior acumulado em uma semana desde 2015, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) analisados com exclusividade pela tab_jornalismo.

Somente no domingo (2), choveu 310 mm em 24 horas, provocando alagamentos, deslizamentos e deixando cerca de 300 imóveis danificados na região do centro da cidade. O Largo do Taboão foi o ponto mais crítico, com o transbordamento do piscinão. A Defesa Civil interditou casas e prestou auxílio a moradores com auxílio de jet-skis cedidos pela seguradora Porto Seguro.

O prefeito Engenheiro Daniel (União) utiliza os jit-skis cedidos à prefeitura, na noite do dia (2), na região central de Taboão da Serra. Foto: Reprodução (Facebook)

Bairros como Vila Iase também sofreram com inundações. Na rua Paulo Portman, o córrego Ponte Alta transbordou e tornou a via intransitável. Na rua Miguel Ângelo Reina, um muro desabou sobre um carro, e na Rua Beatriz Terezinha, um morador ficou preso após outra estrutura ruir.

A prefeitura, comandada pelo novo prefeito Engenheiro Daniel (União Brasil), decretou estado de calamidade pública no dia 3 e iniciou a distribuição de alimentos e itens básicos.

Os dados meteorológicos foram coletados de três dos quatro pluviômetros do Cemaden na cidade (Parque Industrial das Oliveiras, Jardim Maria Helena e Parque Laguna – este último sem registro no dia 2) e analisados a partir de 120 arquivos processados com linguagem de programação.

Por que isso é importante?

As chuvas que atingiram Taboão da Serra em fevereiro de 2025 ocorrem em um cenário de mudanças climáticas que já vinham sendo previstas por estudos científicos há pelo menos uma década. O relatório Brasil 2040, encomendado em 2014 pelo governo federal ao custo de R$ 3,5 milhões, já indicava um possível aumento de 15% a 25% no volume de chuvas exatamente nas áreas afetadas pelas cheias deste ano.

A rua José Soares de Azevedo, no bairro Vila Santa Luzia, ficou coberto de lama após as chuvas. Foto: Prefeitura de Taboão da Serra (Reprodução)

O estudo, produzido por pelo menos seis institutos federais de pesquisa e universidades associadas, também recomendava ações de adaptação, como investimentos em infraestrutura para drenagem e fortalecimento de políticas de prevenção de desastres. Confira íntegra do documento no nosso Pinpoint.

Apesar disso, em Taboão, o quadro de pouco investimento em infraestrutura, com, como foi revelado pela tab_jornalismo em maio de 2024, quando o governo municipal reduziu em 63% verba para prevenção de desastres naturais.

Dados do Copernicus Climate Change Service (C3S) do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF), apontam que o aumento da frequência e da intensidade das chuvas não é um evento isolado, mas parte de um padrão climático mais amplo. Para o modelo climático ERA5(T) do Centro coloca como raras as precipitações maiores a 100mm no mês.

No entanto, nos útlimos anos, esse quadro tem mudado. Esse ano, apenas nos primeiros dez dias deste mês, esse volume foi superado ao menos três outras vezes — nos dias 1, 2 e 10, com 129,9mm, 310,5mm e 140,6mm, respectivamente. O mesmo aconteceu em janeiro, com ao menos três episódios de chuva acima dessa marca.

O que dizem os dados?

Os dados do Cemaden, analisados pela tab_jornalismo, mostram que, até o momento, fevereiro teve acumulado de chuva em 728mm, o maior valor esperado para o período desde o ínicio da série histórica da instituição, que vão até a metade de 2014, quando os puviômetros foram instalados.

O volume de chuva é medido em milímetros, e cada milímetro nessa escala equivale a um litro de água por metro quadrado. Isso significa que os 728mm acumulados em Taboão da Serra nos primeiros dez dias de fevereiro representam 728 litros despejados sobre cada metro quadrado da cidade.

Considerando a área total do município, de cerca de 20 km² (ou 20 milhões de m²), o volume de água que caiu equivale a aproximadamente 14,56 bilhões de litros — suficiente para encher mais de 7,28 milhões de caixas d’água de 2 mil litros ou quase 5.824 piscinas olímpicas.

A cidade teve um início do ano com chuvas de até 30mm nas duas primeiras semanas de janeiro, seguidas por outras duas semanas que em que a média variou até aproximadamente 38,8mm – com as eventos nos 16, 24 e 26 de janeiro, todos com mais de 110mm.

A primeira semana de fevereiro, no entanto, teve o maior volume de chuva acumulado em um único dia desde o início da disponibilização dos dados da cidade, sendo 314mm somente no dia 2. Taboão só tinha tido outra chuva desse tipo em 26 de dezembro de 2015, segundo Cemaden, quando choveu o equivalente a 224mm em um único dia, 91,8% do esperado para aquele mês.

Os dados analisados pela reportagem foram obtidos a partir dos 3 pluviômetros do Cemaden instalados na cidade: um da na Rua das Camélias, no Parque Assunção; outro no Parque Industrial das Oliveiras, onde fica a sede Defesa Civil, e outro no Jardim São Judas Tadeu.

Com a mesma técnica utilizada para compor o primeiro mapa eleitoral da cidade, a reportagem conseguiu calcular o volume aproximado de chuva em diferentes regiões da cidade.

Embora a região do centro tenha concentrado o maior número de atingidos, bairros como Chácara Agrindus, Parque Assunção e bairros em volta tiveram na primeira semana de fevereiro, em média, 205,8 mmmm de chuva, 84,3% do esperado para o mês, em todo município.

A região que teve maior volume registrado, no entendo, foi a do Parque Pinheiros e Jardim Record, os maiores e mais populosos bairros da cidade. Foram 289,42 de chuva, mais de 280 litros por metro quadrado, e 96,9% do esperado para cidade só nessa região.

No bairro São Judas Tadeu, onde fica o terceiro pluviômetro, também choveu acima do esperado, cerca de 97,8 a mais do que o total da região, com 232,8mm. Não foi possível apurar a quantidade da região do Parque Laguna, onde há um quarto pluviômetro, mas que não registra dados desde 2015.

O que estão dizendo?

O prefeito Engenheiro Daniel (União Brasil) afirmou ao portal G1 que a prefeitura de Taboão da Serra distribuiu kits de higiene, além de ter montado um esquema de coleta de doações para os atingidos pelas enchentes.

Daniel, no entanto, não soube informar sobre o plano de drenagem, que estabelece as diretrizes para lidar com os problemas das enchentes na cidade.

Prefeito Enegenheiro Daniel (União Brasil) utiliza jet-ski para auxiliar moradores da Vila Santa Luzia,no dia 2 de fevereiro. Foto: Reprodução (Facebook)
Prefeito Enegenheiro Daniel (União Brasil) utiliza jet-ski para auxiliar moradores da Vila Santa Luzia,no dia 2 de fevereiro. Foto: Reprodução (Facebook)
“É uma informação também que recebi ontem [dia 2] do secretário e do responsável Defesa Civil, mas a gente está levantando. Não quero fazer crítica ao governo passado. Às vezes tem, mas nessa transição a gente não conseguiu acesso ainda”, disse ao G1.

Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, em entrevista à Agência Brasil, aponta para recorrência de tragédias com vítimas, e expõe a falta de preparo diante dos riscos climáticos.

Natalie Unterstell é especialista em Administração Pública pela Harvard Kennedy School, além de obter a mesma certificação de especialista, em Finanças para Mundaças climáticas pela Frankfurt School of Finance & Management.  Foto: Divulgação
Natalie Unterstell é especialista em Administração Pública pela Harvard Kennedy School, além de obter a mesma certificação de especialista, em Finanças para Mundaças climáticas pela Frankfurt School of Finance & Management. Foto: Divulgação
“Não existem catástrofes ‘naturais’ nas cidades brasileiras […] É absolutamente catastrófico quando se sabe dos riscos climáticos e não se prepara para reagir, ou se prepara mal. Não há nenhuma naturalidade em desastres quando estamos falando de um ambiente urbano”, completa.

Ao mencionar as alterações no regime de chuvas causados pela alteração no clima, Unterstell aponta para novas tendências no clima do país.

“As regiões Norte e Nordeste do país enfrentarão maior ressecamento, com redução de chuvas e aumento de dias secos, comprometendo as vazões dos rios”, alerta especialista.

Já o Sul e o Sudeste devem esperar um aumento no volume das chuvas nas próximas décadas. O Centro-Oeste, por sua vez, “se destaca como a região que deve ter o maior aumento de temperatura”, podendo superar os 3°C caso o aquecimento global atinja esse patamar.

Um estudo conjunto do Instituto de Física Atmosférica (IAP, em inglês) da Academia Chinesa de Ciências (CAS, em inglês) e do Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, aponta, inclusive, para um novo regime climático, com intensificação de eventos extremos.

Na imagem, Taboão da Serra (SP) se recuperava dos fortes temporais que haviam atingido a cidade em janeiro de 2014. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
Na imagem, Taboão da Serra (SP) se recuperava dos fortes temporais que haviam atingido a cidade em janeiro de 2014. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
“Modelos climáticos preveem que a variabilidade da precipitação em regiões úmidas em todo o mundo será amplamente intensificada pelo aquecimento global, causando grandes oscilações entre condições secas e úmidas”, escreve o cientista Zhou Tianjun, um dos autores.

A Dra. Aditi Mukherji, diretora da Plataforma Plataforma de Ação para Impacto na Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas, é uma das autoras do Relatório Climático AR6 Synthesis Report, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas (ONU), e reitera o olhar para as consequência de eventos climáticos, principalmente sob populações mais vulneráveis.

As enchetes em Taboão da Serra não são um fato novo, mas há registro, como esse da foto, de janiero de 2014, quando a cidade havia passado por outra enchente. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
“Quase metade da população mundial vive em áreas altamente vulneráveis às mudanças climáticas”, afirmou Aditi Mukherji. “Na última década, a mortalidade por inundações, secas e tempestades foi 15 vezes maior nessas regiões”, acrescentou.

Segundo o relatório do Observatório Copernicus, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) da União Europeia, o ano de 2024 foi o mais quente da história, com uma temperatura média global de 15,1ºC, superando em 1,5ºC os níveis pré-industriais. A temperatura média do planeta também superou em 0,7ºC a média das últimas três décadas (1991-2020).

Diante desse cenário, a coordenadora estratégica para o clima da ECMWF, Samantha Burgess, alerta para as consequências humanitárias do aumento da temperatura.

“As altas temperaturas globais, junto com o recorde do nível de vapor de água na atmosfera em 2024, representam chuvas pesadas e ondas de calor sem precedentes, causando sofrimento para milhões de pessoas”, afirma Burgess.

O aumento de 5% no nível de vapor de água na atmosfera, em comparação com a média dos últimos 35 anos, eleva a probabilidade de eventos climáticos extremos.

Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
Guincho da prefeitura retira carro de córrego na cidade depois das chuvas de janeiro de 2014. Foto: Marcelo Camargo (Agência Brasil)
“Este fornecimento abundante de umidade ampliou o potencial para ocorrências de chuvas extremas. Além disso, combinado com as altas temperaturas da superfície do mar, contribuiu para o desenvolvimento de grandes tempestades, incluindo ciclones tropicais”, detalha o relatório.

O relatório do Copernicus também aponta que o aquecimento dos oceanos elevou em 5% a quantidade de vapor de água produzida, em comparação com a média de 1991 a 2020.

Saiba mais

Confira os dados utilizados pela reportagem no site do Cemaden, dos relatórios utilzidos pela reportagem nos sites do IPCC, da Academia Chinesa de Ciências e do Observatório Copernicus, da União Europeia.

 Os dados são públicos, livres e tem acesso gratuito e digital.