Taboão da Serra registrou 39 mortes decorrentes de intervenção policial entre 2013 e 2025, segundo microdados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo analisados pela tab_jornalismo.
Ao todo, foram identificadas 39 ocorrências no período. O maior número de mortes foi registrado entre 2019 e 2020, quando a cidade concentrou 12 vítimas.
A maioria dos casos envolveu policiais militares em serviço (71,7%). Os registros também indicam que aproximadamente 8 em cada 10 mortes ocorreram principalmente em vias públicas.
Todas as vítimas registradas no período são homens. Desses, pretos e pardos representam 66,7% dos mortos. A idade mediana das vítimas era de 21 anos.
Por que isso é importante?
Mais de 6 mil pessoas morrem por ano no Brasil em decorrência de intervenções policiais — uma média superior a 17 mortes por dia.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que esse tipo de ocorrência segue concentrado em homens jovens, pretos e pardos, que representam 82% das vítimas fatais no país, ou seja, 8 em cada 10 — nível superior ao de Taboão.
O levantamento também aponta crescimento desse indicador em diferentes estados, com destaque para São Paulo. No território paulista, as mortes provocadas por policiais em serviço passaram de 542 para 835 registros em 2024, alta de aproximadamente 61% em um ano.
O que dizem os dados?
Microdados da SSP-SP analisados pela tab_jornalismo apontam que Taboão da Serra registrou 39 ocorrências de mortes decorrentes de intervenção policial entre 2013 e 2025, com picos de 6 casos em 2019 e 2020, respectivamente.
Em termos de gênero, 100% dos indivíduos eram do sexo masculino, com idade mediana de 21 anos, sendo estudantes e ajudantes as ocupações mais frequentes. Pessoas pretas (20,5%) e pardas (46,2%) somam 66,7% do total.
A Polícia Militar esteve envolvida em 38 registros no período histórico compilado, enquanto a Polícia Civil respondeu por 1 ocorrência.

Em relação ao status do agente público no momento do fato, os dados oficiais demonstram que 28 óbitos decorreram de ações de policiais em serviço, enquanto 11 ocorreram em períodos de folga corporativa.
A distribuição espacial e temporal dos registros indica que 31 ocorrências foram notificadas em vias públicas e 8 em residências.
O turno da noite concentrou 15 casos, seguido pelo da madrugada, com 13 notificações. Na série histórica acumulada por meses, novembro e dezembro apresentam a maior incidência de registros, com 8 casos cada.
O que estão dizendo?
Para o analista de dados, Dennis Pacheco, que atuou do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a letalidade nas ações policiais está ligada às violência sofridas historicamente dirigida aos corpos negros.

“[…] no caso dos corpos negros, a gente está propenso a tudo. Não existe essa percepção de que nós temos direitos”.
Thiago Amparo, advogado, professor de Direito (FGV-SP) e ativista contra o racismo, completa a fala de Pacheco ao apontar que também um viés estrutural a partir da ideia de que
“[…] pessoas negras seriam inerentemente, naturalmente mais propensas à criminalidade”, ressalta o pesquisador.

Amparo também aponta para o papel da Polícia e dos policiais como agentes da lei, que disciplina a atuação policial.
“[…] a gente não pode normalizar uma abordagem com tapa no rosto, na nuca ou algum tipo de humilhação”.
Em conversa com a tab_jornalismo, a vereadora Najara Costa (PCdoB) destacou que a população negra do país ainda se encontra em uma condição vulnerabilidade.
Para a vereadora, que também é socióloga e ativista, é urgente reconhecer que o racismo opera de forma sofisticada e promove letalidade.

“[Pessoas pretas e pardas] morrem mais cedo, seja através da violência letal policial ou também através da falta de tratamento e de políticas públicas de acolhimento, de tratamento, de oportunidades”.
Como resposta, Costa defende a implementação do Projeto de Lei nº 035/2026, que estabelece o protocolo antirracista no município, focado em ações preventivas, no levantamento de dados estatísticos e no acolhimento das vítimas. O projeto aguarda sanção e regulamentação da Prefeitura.
A parlamentar lamenta que, apesar de alguns avanços sociais, como a implementação de política de cotas, área na qual Costa defendeu seu mestrado:

“[…] os dados sobre violência e extermínio da população negra persistem”, exigindo uma resposta firme do poder público.
Ela argumenta que segurança pública “não é armamento, é pensar em estratégias de inteligência”, e critica a imposição de lógicas militarizadas para os mais pobres.
“Policial não é professor e escola não é quartel”, alerta Costa, que também aponta para a criação de uma educação que trata o ensino o “como se fosse caso de polícia”.
Para Denice Santiago, Tenente-coronela e superintendente da Prevenção à Violência na PM-BA, e conselheira do Fórum, a desumanização gera números trágicos, pois o Estado e a sociedade esquecem que

“[…] esse racismo é tão perverso que faz a gente esquecer que ali é um ser humano, que teve menos oportunidades, que é fruto e traz como herança a forma e o formato como nosso país tratou as pessoas negras”, disse Santiago.
A Diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, também acredita essa violência tem múltiplos impactos sobre a juventude.

“O [que] Brasil tem feito com a sua juventude um massacre. Na última década foram quase 300 mil jovens assassinados, dos quais três em cada quatro eram negros”.
Para Tenente-coronela Santiago, frear a violência e proteger a todos exige enfrentar a cultura das corporações e empresas ligadas para “desconstruir esse passo”
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) justificou os índices afirmando que a atual gestão “intensificou o enfrentamento à criminalidade violenta e organizada” com operações de alto risco, o que influenciaria diretamente os confrontos.
A pasta destacou que investiga com rigor todas as mortes decorrentes de intervenção policial e que, desde 2023, “mais de 1,3 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos” das corporações.
A secretaria ressaltou ainda ações contínuas para reduzir a letalidade, como o uso de equipamentos de menor potencial ofensivo e a expansão do sistema de câmeras corporais (COPs), com o objetivo de permitir o acompanhamento em tempo real e reforçar “a transparência e o controle das operações”.
Saiba mais
Os dados desta reportagem foram processados em linguagem Python e analisados pela tab_jornalismo a partir de microdados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP).
Para o panorama socioeconômico e demográfico de comparação, foram utilizados dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para consultar o diagnóstico consolidado a nível nacional, acesse o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Os dados são públicos, livres e tem acesso gratuito e digital, resguardada a necessidade de indicação ou menção de Fonte e autor.